Formação integradora em saúde: construção colaborativa de uma disciplina interprofissional na área da saúde

  • Larissa de Freitas Bonomo UFJF-GV
  • Lélia Cápua Nunes UFJF-GV
  • Loraine Luzia Aparecida de Oliveira UFJF-GV
  • Roberta Pamplona Frade Madeira UFJF-GV
  • Ananda Carvalho Martins UFJF-GV

Resumo

INTRODUÇÃO A consolidação de práticas de saúde que se orientem pelos princípios e diretrizes do SUS depende da formação de uma força de trabalho preparada para atender às necessidades de saúde da população. Entre as demandas, está a formulação de novas propostas, na perspectiva crítica, interprofissional e colaborativa, na direção da constituição de sujeitos para a transformação social, integrando a formação à realidade do serviço (SILVA, 2011). A OMS (2010) afirma que uma das soluções mais promissoras para assegurar a disponibilidade e a distribuição adequada da força de trabalho reside na colaboração interprofissional. A Universidade Federal de Juiz de Fora-Campus Governador Valadares (UFJF-GV) foi implantada em 2012 como resultado da expansão das vagas do ensino superior e conta com seis cursos da área da saúde: Educação Física, Farmácia, Fisioterapia, Nutrição, Medicina e Odontologia. Esta iniciativa atende a um anseio do município por perspectivas de desenvolvimento econômico, social e cultural e por melhor qualificação regional na área da saúde. Neste contexto, os cursos da área da saúde tem a missão de formar profissionais capacitados para atuarem frente às reais necessidades sociais e de saúde do território. A construção de uma disciplina interprofissional na área da saúde, de forma colaborativa torna-se relevante para contribuir para a formação de profissionais mais preparados para atuação no SUS e para potencializar o diálogo entre os departamentos para induzir outros processos de mudanças curriculares nesse mesmo sentido. OBJETIVOS O objetivo deste trabalho é narrar a experiência de construção colaborativa de uma disciplina interprofissional para a graduação na área da saúde na UFJF-GV. MÉTODOS O presente relato surgiu após observação sistemática, descrição e análise da experiência vivenciada pelos docentes da área da saúde da UFJF-GV. Este relato traz elementos de um projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora. Inicialmente foi conduzido um processo de capacitação com dezesseis tutores do PET GraduaSUS, que consistiu em quatro encontros quinzenais, com duração de três horas, com foco nas temáticas: trabalho em equipe, metodologias ativas, construção de currículo e avaliação. A realização de um quinto encontro foi reservada para construção coletiva de elementos referentes ao cerne da disciplina, como ementa, carga horária, oferta de vagas e sugestões de metodologias e formas de avaliação. Todos os encontros foram construídos com base em métodos e técnicas ativos de ensino-aprendizagem e em momentos de  reflexão crítico-propositiva. Durante as atividades, os docentes eram divididos em grupos aleatórios, com objetivo de favorecer a interação entre os diferentes saberes das diferentes áreas. Após cada encontro foi realizada uma avaliação, por meio de potencialidades,  desafios e sugestões. Durante todo o período de capacitação, os docentes  foram  convidados a escrever em seus diários de classe. Após a realização dos encontros, oito docentes, representantes dos seis cursos da área da saúde da UFJF-GV permaneceram trabalhando juntos em reuniões periódicas para definição dos detalhes da disciplina. Durante as reuniões, foram decididos de forma colaborativa os desempenhos a serem alcançados, o plano de aula, as temáticas e respectivas metodologias, os objetivos de aprendizagem de cada aula, a forma e momentos de avaliação do estudante e da disciplina. Os docentes de diferentes departamentos foram divididos em duplas para serem responsáveis  pela condução das aulas. RESULTADOS E DISCUSSÃO A ideia de realizar a capacitação previamente ao início da construção e implantação da disciplina surgiu da necessidade de integrar os docentes e de apresentar e trabalhar com eles as ferramentas para definição dos objetivos, metodologias de ensino-aprendizagem e avaliação do estudante e de programas. As capacitações foram muito bem avaliadas, porém, foram destacados como desafios o cansaço e a limitação de tempo para os professores dedicarem ao aprofundamento das temáticas abordadas. Os encontros foram importantes para aproximar os docentes da área  da saúde e estreitar o diálogo interprofissional para a construção da disciplina. Os docentes permaneceram integrados, motivados e concentrados durante todos os momentos, participando ativamente e interagindo entre si e com a tutora. Além disso, começaram a refletir sobre a possibilidade de mudanças nas suas práticas docentes, a partir da inserção  de métodos e técnicas ativas, e a defender uma nova forma de ensinar. Durante o processo de afinação da construção da disciplina nas reuniões, ficou evidente a necessidade de conhecer todo o processo administrativo de inserção no sistema e organização da matrícula dos estudantes. Nos momentos de apresentar a disciplina nos departamentos, para conseguirem apoio, foram enfrentadas dificuldades em relação ao entendimento e engajamento na proposta, por ser algo novo no cotidiano da vida e trabalho e por muitos entenderem que a iniciativa seria “para docentes da saúde coletiva”. Ao planejarem os objetivos de aprendizagem e as aulas, os docentes exercitaram a mudança de concepções, por meio de momentos de auto-reflexão, como no qual vivenciaram a dificuldade  de  entender as metodologias ativas quando sentiram a necessidade de “explicar o conteúdo”, a partir da ideia sempre vivenciada por eles do que seria o processo de ensino-aprendizagem. Além disso, ao levarem uma proposta para a aula de “prática baseada em evidência”, acabaram por despertar para o fato de que, mesmo reconhecendo a importância e a necessidade de ensinar para a visão integral do sujeito, propuseram um caso fragmentado, com uma pessoa com problema de dentição, para a odontologia; com hipertensão, para a nutrição; com um problema de articulação, para a fisioterapia; com obesidade, para a educação física, etc. Isso demonstra que o exercício da interprofissionalidade precisa ser trabalhado também entre os docentes. CONCLUSÃO Apesar de ser uma iniciativa de caráter interprofissional em nível micro, inserida em um contexto formador tradicional e, que por   isso, seja esperado um menor impacto na formação em saúde, a construção colaborativa da disciplina interprofissional foi pensada, também, para ter o potencial de reverberar  nos  cursos e disparar outras mudanças curriculares na direção de uma formação menos fragmentada, mais compartilhada e com foco no desenvolvimento de competências. O percurso dos docentes no trabalho para a construção da disciplina permitiu a mudança de conceitos, o exercício do trabalho interprofissional e o empoderamento para re(pensar) a prática docente e os currículos nucleados nos cursos e suas interfaces entre si, inclusive na perspectiva de maior integração entre os estudantes das profissões da saúde e entre ensino, serviço e comunidade. Além disso, a vivência contribuiu para sensibilizar outros docentes para compreender o objetivo da criação da disciplina e incentivar os estudantes em cursá-la.

Publicado
19-09-2018
Como Citar
1.
Bonomo L, Nunes L, de Oliveira L, Madeira R, Martins A. Formação integradora em saúde: construção colaborativa de uma disciplina interprofissional na área da saúde. JMPHC [Internet]. 19set.2018 [citado 18dez.2018];8(3):51-2. Available from: http://jmphc.com.br/jmphc/article/view/615