Caracterização das ações da enfermagem na atenção primária à saúde para o trabalho em equipe e prática colaborativa interprofissional

  • Aline Maciel Vieira Lima Unidade de Vigilância em Saúde Vila Prudente-Sapopemba da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo
  • Marina Peduzzi

Resumo

Esta pesquisa trata do estudo das ações dos profissionais que compõe a equipe de enfermagem, que atuam na Estratégia Saúde da Família (ESF). A colaboração interprofissional é um processo desenvolvido e mantido pela relação interprofissional eficaz entre trabalhadores da saúde, pacientes, familiares e comunidade para o alcance de melhores resultados na atenção à saúde. E para o trabalho interprofissinal se realizar de forma colaborativa é preciso a clarificação dos papeis dos diferentes profissionais. A enfermagem tem em sua história a divisão técnica e social do trabalho, que resultou em diferenças não só técnicas, mas também na desigual valorização dos trabalhos realizados pelos auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem e enfermeiros. Sua inserção na Atenção Primária à Saúde (APS) também se diferencia para enfermeiros e auxiliares e técnicos de enfermagem (AUX/TEnferm), e apesar dos avanços registrados do trabalho destes profissionais na APS, há literatura que aponta que não há clarificação de papéis entre os próprios membros da equipe de enfermagem Partindo desta afirmação e sabendo que para o trabalho interprofissional se realizar de forma colaborativa também é necessário a clarificação dos papeis dos diferentes profissionais, esta pesquisa propõe identificar e  analisar as ações específicas e comuns que compõe o trabalho dos enfermeiros e AUX/TEnferm na APS. Trata-se de pesquisa exploratória qualitativa que está vinculado ao projeto intitulado “Caracterização de competências dos profissionais de saúde da atenção básica para o trabalho em equipe e prática colaborativa interprofissional” coordenado pela professora doutora Marina Peduzzi, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da USP (Nº do processo 45956515.4.0000.5392), e que se foi desenvolvida em duas fases. Na primeira fase, com o objetivo de construir um mapa de ações específicas  a partir de documentos oficiais, ou seja, documentos que tratam das políticas de APS, regulação e formação da enfermagem, foram pesquisados documentos disponibilizados nos sites do Ministério da Saúde, do COFEN/COREN e do Ministério da Educação. A partir da análise destes documentos, foram selecionadas ações que diziam respeito às práticas dos enfermeiros e AUX/TEnferm. Cada ação foi analisada individualmente, a fim de identificar sua finalidade a partir da lógica do processo de trabalho de enfermagem e saúde. Para isso utilizou-se a classificação por oito eixos de atenção à saúde, a saber: recuperação da saúde (eixo 1), promoção da saúde (eixo 2), prevenção (eixo 3), educação permanente (eixo 4), comunicação (eixo 5), gestão do cuidado (eixo 6), gestão do processo de trabalho e serviços (eixo 7), pesquisa e formação (eixo 8). Na segunda fase o objetivo foi validar o mapa de ação construído a partir de documentos oficiais por profissionais de enfermagem atuantes na APS. Foi realizado duas oficinas de trabalho, uma com dez enfermeiros e outra com doze AUX/TEnferm. Cada participante teve acesso a uma planilha Excel com o mapa de ações especificas da sua categoria profissional. Cada ação do mapa estava acompanhada por  cinco alternativas (faço, não faço, faço e não deveria fazer, não faço mas deveria fazer, faço e outros profissionais também fazem). Para a validação das ações foram consideradas aquelas que tiveram como resposta por pelo menos um dos participantes uma  das  alternativas “faço”, “não faço mas deveria fazer” e “faço e outros profissionais também fazem”. Como resultado da primeira fase do estudo, teve a construção de um mapa de ações especificas, sendo o mapa dos enfermeiros composto por 198 ações, distribuídos da seguinte forma   entre os oito eixos de finalidade de atenção: 29 ações no eixo 1, 21 para o eixo 2, 62 para o eixo 3, 17 ações para o eixo 4, 21 para o eixo 5, 22 para o eixo 6, 23 para o eixo 7, e 3 ações para o eixo 8. Para os AUX/TEnferm o mapa ficou composto por 154 ações, sendo 24 para o eixo 1, 7 para o eixo 2, 48 para o eixo 3, 4 ações para o eixo 4, 14 para o eixo 5, 21 para o eixo 6, 34 para o eixo 7 e 2 ações para o eixo 8. Observa-se nos documentos oficiais um maior número de ações que descrevem o trabalho do enfermeiro na APS em comparação com os profissionais de nível médio, porém os três eixos com a maior quantidade de ações tanto para os enfermeiros como para os AUX/TEnferm são os mesmos, o que aponta para a indução, por parte dos documentos, de finalidades semelhantes para o trabalho de ambas as categorias profissionais. Para os enfermeiros o eixo mais representativo é o de Prevenção, seguido pelo de Recuperação da Saúde e Gestão do processo de trabalho e serviços. Para os AUX/TEnferm o eixo de Prevenção também é o mais representativo, seguido por Gestão do processo de trabalho e serviços e Recuperação da saúde. Na segunda fase do estudo, os enfermeiros validaram todas as 198 ações, e os AUX/TEnferm validaram 153 ações. Porém para cada eixo de finalidade de atenção houve percentis diferentes de concordância entre os participantes. Os enfermeiros tiveram percentil > 75% de concordância entre os participantes para 83% das ações do eixo1, 100% para o eixo 2, 86% das ações para o eixo 3, 100% para o eixo 4, 86% das ações para o eixo 5, 82% para o eixo 6, 96% das ações para o eixo 7, e 100% para o eixo 8. Os AUX/TEnferm tiveram percentil > 75% de concordância entre os participantes para 63% das ações para o eixo 1, 71% para o eixo 2, 70% das ações para o eixo 3, 100% para o eixo 4, 36% das ações para o eixo 5, 62% para o eixo 6, 62% das    ações para o eixo 7 e 50% para o eixo 8. Observa-se maior concordância entre os enfermeiros do que entre os AUX/TEnferm sobre o reconhecimento das ações específicas que compõe seu trabalho na APS. Do total de ações que compunham o mapa dos enfermeiros, 179 delas foram reconhecidas como compartilhadas com outros profissionais, porém o percentil de concordância > 75% entre os participantes sobre  este  compartilhamento foi baixo, no eixo 1 somente 4% das ações alcançaram  esta  concordância, no eixo 2, 4,8% das ações e no eixo 3, 8,5% das ações, os outros eixos apresentaram concordância <75%. Os AUX/TEnferm reconheceram 138 ações que compartilham com outros profissionais, porém o percentil de concordância entre os participantes > 75% também foi baixo, somente no eixo 1, 4,5% das ações alcançaram esta concordância, os demais eixos apresentaram concordância <75%. Observa-se a falta de consenso entre os profissionais de enfermagem sobre as ações comuns que podem ser realizadas por eles (conhecimento do seu próprio trabalho) e também por outros profissionais (reconhecimento do trabalho do outro), indicando a possível incipiência do compartilhamento e colaboração nas ações no dia-a-dia dos serviços. Espera-se que os resultados desta pesquisa possa ser instrumento para os profissionais de enfermagem refletirem sobre sua prática e a finalidade de seu trabalho na APS, visto que os mapas de ações construídos a partir de documentos oficiais traduzem as diretrizes do trabalho a ser realizado pela enfermagem e que no entanto os profissionais, a depender do nível de formação,  apresentam maior ou menor concordância de seu núcleo específico de trabalho, bem como do trabalho que pode ser comum e compartilhado com outros profissionais que compõe a equipe da ESF.

Publicado
19-09-2018
Como Citar
1.
Lima A, Peduzzi M. Caracterização das ações da enfermagem na atenção primária à saúde para o trabalho em equipe e prática colaborativa interprofissional. JMPHC [Internet]. 19set.2018 [citado 18dez.2018];8(3):32-3. Available from: http://jmphc.com.br/jmphc/article/view/645